Desta vez, vou tentar escrever mais rápido e talvez assim não me descreva. Em cada palavra que se prolonga de mim até ao papel vou-me descarregando, aliviando-me do peso do meu ser para ficar mais subtil e ver-me. Se sai de mim, é de mim que está feito e revestido.Há pessoas que não gostam de cenouras. Eu gosto. Será que até nestes simples factos falei demais? Toda a gente o sabe, mas eu escrevi-o. Porquê? Por que é que, letra a letra, preto no branco, o comuniquei? Porquê? Sempre a brincar às escondidas para depois me prostrar diante do mundo. Fugir para ser apanhado. Dizer que não disse o que disse. Esbater ideias que me magoam. Expelir uns pensamentos para dar lugar a outros num fio interminável que não desejo rematar mas que teima em ter final.
Dói-me se escrevo e dói-me se não escrevo. Dói-me o que escrevo e dói-me o que não escrevo. Dói-me tanto a muita alegria na dor sentida quando percorro as curvas e contracurvas destes desenhos a que chamamos palavras.
Deste universo que são os meus pensamentos teimam em sair pequenas ilhas cheias de vida. Umas com mais cores, outras com mais formas, outras ainda cheias de sons. Quando acabam as perguntas cessam as respostas? Não. Três vezes, não.
Contesto, protesto e demonstro a minha falta de conformidade pintando paredes, poluindo o ar com sons e enchendo outras cabeças com puzzles de frases. Alimento-me na selva, embrenhado nas necessidades alheias. Construo-me peça a peça mas há sempre qualquer coisa que teima em fugir, em se esconder.
Jogo com este brinquedo abstracto e procuro-me, lentamente.

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