sábado, 7 de julho de 2007

Pontas


Cinco são as pontas de quatro de outras cinco. Da quinta ocorrem seis, as seis mais importantes. Encurralado numa superfície fronteiriça, arranho a superfície dum universo à borda da menor realidade. O corpo, uma ponta na ponta do mundo.

A acção dá reacção. Faço para desfazer. Desfaço, fazendo. Construo derivações de múltiplas multiplicações, adicionadas numa soma na qual há um resultado. Percorro profundidades, aguento pressões, supero tempestades, tudo para permanecer. De forma intermitente percepciono continuamente. Nos espaços em branco deixo as dúvidas.

À deriva, roço nas pontas de todas as outras pontas. As novas pontas, estas com forma de palavras, tentativas da suposta excelência inventada e praticada. Descrevo e compreendo, rompo e evoluo.

Mais rápido, fujo e escondo-me

Desta vez, vou tentar escrever mais rápido e talvez assim não me descreva. Em cada palavra que se prolonga de mim até ao papel vou-me descarregando, aliviando-me do peso do meu ser para ficar mais subtil e ver-me. Se sai de mim, é de mim que está feito e revestido.

Há pessoas que não gostam de cenouras. Eu gosto. Será que até nestes simples factos falei demais? Toda a gente o sabe, mas eu escrevi-o. Porquê? Por que é que, letra a letra, preto no branco, o comuniquei? Porquê? Sempre a brincar às escondidas para depois me prostrar diante do mundo. Fugir para ser apanhado. Dizer que não disse o que disse. Esbater ideias que me magoam. Expelir uns pensamentos para dar lugar a outros num fio interminável que não desejo rematar mas que teima em ter final.

Dói-me se escrevo e dói-me se não escrevo. Dói-me o que escrevo e dói-me o que não escrevo. Dói-me tanto a muita alegria na dor sentida quando percorro as curvas e contracurvas destes desenhos a que chamamos palavras.

Deste universo que são os meus pensamentos teimam em sair pequenas ilhas cheias de vida. Umas com mais cores, outras com mais formas, outras ainda cheias de sons. Quando acabam as perguntas cessam as respostas? Não. Três vezes, não.

Contesto, protesto e demonstro a minha falta de conformidade pintando paredes, poluindo o ar com sons e enchendo outras cabeças com puzzles de frases. Alimento-me na selva, embrenhado nas necessidades alheias. Construo-me peça a peça mas há sempre qualquer coisa que teima em fugir, em se esconder.

Jogo com este brinquedo abstracto e procuro-me, lentamente.

No carreiro por onde nunca passei


Ontem voltei a passar por aquele carreiro ao lado do tanque de pedra. Recordei-me que só o percorri uma vez. Lembrei-me que o pensei milhares de vezes.

Foi numa tarde a meio dum mês que me enchi de coragem e me meti a caminho. “Tenho de ver onde vai dar.”. Quando lá cheguei, parei, olhei, escutei e pensei pela última vez que não iria mais pensar que nunca tinha passado por ali e que a dúvida da existência do outro lado, do fim do carreiro iria finalmente cessar.

Demorei-me ainda mais um tempo. As minhas ideias deixaram de falar comigo enquanto mirava o trajecto visível. Não sei quanto tempo passou. O caminho estava livre e seco. Eram poucas as pedras e o carreiro estava incrivelmente limpo de ervas. Dos lados, as plantas dobradas espreitavam as suas sombras tortas no castanho da terra visível. Parecia um risco castanho no meio de um verde brilhante.

“Se me preocupar onde ponho os pés, não vejo por onde passo, não saberei por onde estive e não contarei por onde passeei.” Mas, eu sabia que seria apenas a primeira vez que por lá passaria. Pestanejei, respirei fundo e fui.

Aquilo que vi, não me recordo. Sei que os cheiros eram intensos, as cores vivas e a emoção enorme. Os meus pés batiam com o meu coração, a minha boca, inspirada pelas sensações, entreaberta, cantarolava uns sons e melodias nunca dantes escutadas.

Dei por mim a meio do caminho. A meio do caminho de quê? A meio? Parei. Olhei para trás. Não havia tanque, não havia rua, tinha deixado de estar ancorado a uma realidade familiar. Era aquilo que procurava!

As ideias transpiravam e começaram a andar à roda. Tudo se fundia num único ponto. Por mais que eu tentasse, não via o que queria. O que estava ao meu lado era uma simples névoa. Coçava a cabeça, sem a coçar. Piscava os olhos, sem os piscar. Mexia as mãos, sem as mexer. Dobrava as pernas, sem as dobrar. Caminhava o caminho, sem o caminhar.

“Estarei longe do meu destino? Terei de voltar para trás?”. Não queria a resposta. Queria perguntas. Queria o querer, o poder, o pertencer, o perder, o ser, o viver. Não estava em mim. Tinha perdido os laços de sempre mas também ganho vínculos para sempre.

O verde estava mais alto e mais escuro. Por todos os lados, olhavam para mim, pinheiros. Por artes mágicas, alguém ali os plantou no último minuto, numa rapidez tal, que, para mim, apenas apareceram. O cheiro era outro, conhecido, mas outro. Continuei. Uma mão no bolso, outra no queixo. Um pé à frente e o outro a passar por ele. Desequilibrava-me para o fim.

Cinzento, cinzento. Cada vez mais cinzento. O bombardeamento que estava a sofrer cessou. O meu nariz deixou de brincar com coisas novas. Os meus olhos executavam ângulos rectos. As mãos ficaram à distância. Parei, olhei à minha volta e já nada era meu. Estava lá, no outro lado, do outro lado, lado a lado com os dois lados. Dois lados em luta, um provocante e outro estimulante.

Com um calafrio, estremeci. “Tenho de voltar.”, pensei. Estremeci outra vez e voltei para mim. Fugi das memórias e pensei: “Só passei lá uma vez!”